Quando falamos em violência contra a mulher, a imagem que normalmente vem à mente é a de um homem como agressor. E estatisticamente essa continua sendo a realidade da imensa maioria dos casos. No entanto, limitar essa discussão apenas a esse cenário pode invisibilizar mulheres que também vivem relacionamentos abusivos em outras configurações, inclusive em relações entre duas mulheres.
Falar sobre isso não diminui a gravidade da violência praticada por homens. Pelo contrário. Amplia o entendimento de que o abuso nasce da necessidade de exercer poder, controle e dominação sobre o outro, independentemente do gênero de quem agride.
Essa é uma conversa necessária.
O abuso raramente começa com violência física
Relacionamentos abusivos dificilmente começam com um tapa.
Na maioria das vezes, eles começam de maneira quase imperceptível: críticas constantes, mentiras, manipulação emocional, isolamento, controle das amizades, chantagem afetiva, desvalorização das conquistas e a sensação permanente de que a vítima nunca é suficiente.
Pouco a pouco, a autoestima vai sendo corroída.
A vítima deixa de confiar em sua própria percepção da realidade e passa a acreditar que está exagerando, que é sensível demais ou que, de alguma forma, merece aquele tratamento.
É justamente essa desconstrução psicológica que torna tão difícil reconhecer o abuso enquanto ele acontece.
O vínculo que aprisiona
Na psicanálise, entende-se que os vínculos afetivos não são sustentados apenas pelo amor consciente.
Nossas escolhas, nossos medos e a forma como nos relacionamos também carregam marcas da nossa história, da infância, das experiências emocionais e dos modelos de afeto que aprendemos ao longo da vida.
Por isso, muitas vítimas permanecem em relações que lhes causam sofrimento.
Não porque gostem da violência.
Mas porque, muitas vezes, o medo da perda, da solidão, da culpa ou da sensação de não serem suficientes acaba falando mais alto do que o próprio sofrimento.
Além disso, relacionamentos abusivos costumam alternar momentos de agressão com períodos de carinho, pedidos de desculpas e promessas de mudança.
Esse ciclo cria esperança e confusão emocional, fazendo com que a vítima acredite que “dessa vez será diferente”.
Mulheres também podem exercer violência
Existe um imaginário social que associa a mulher apenas ao papel de vítima.
Entretanto, qualquer pessoa é capaz de exercer comportamentos abusivos.
Mentir de forma recorrente, manipular emocionalmente, controlar, humilhar, ameaçar, praticar violência física ou sexual e utilizar o sofrimento do outro como instrumento de poder são atitudes que não pertencem a um gênero específico.
Quando isso acontece em relacionamentos entre mulheres, muitas vítimas enfrentam uma dificuldade adicional: o medo de não serem levadas a sério.
Existe receio do julgamento, da minimização da violência e da ideia equivocada de que, por serem duas mulheres, a relação seria naturalmente mais saudável.
Infelizmente, isso nem sempre corresponde à realidade.
O silêncio protege o agressor
Toda violência cresce no silêncio.
Quanto mais difícil é falar sobre determinado assunto, mais pessoas continuam sofrendo sozinhas.
É por isso que ouvir relatos reais tem tanto impacto.
Eles ajudam outras pessoas a reconhecerem sinais que talvez ainda não consigam enxergar na própria vida.
Nem todo relacionamento termina porque acabou o amor.
Alguns precisam terminar porque acabaram o respeito, a segurança e a liberdade.
Daqui Pra Frente
Durante o Agosto Lilás, o projeto “Daqui Pra Frente” criado por mim para publicações no Aceleradas, reúne relatos reais — publicados de forma autorizada e anônima — de mulheres que sobreviveram a relacionamentos abusivos.
O objetivo não é reviver a dor.
É transformar experiências em informação, acolhimento e esperança para que outras mulheres consigam reconhecer os sinais antes que a violência avance.
Porque sempre existe um caminho.
E ele começa quando alguém percebe que merece viver sem medo.
Assista ao depoimento completo no Instagram do Aceleradas: