No meio de mais de 6 mil pessoas trabalhando para colocar o Suhai Festival Interlagos de pé, tinha muita mulher.
E não estou falando apenas das mulheres que estavam nos estandes.
Tinha CEO, diretora, profissional de marketing, promotora, modelo, consultora, caixa, piloto, influenciadora, segurança, supervisora, auxiliar de limpeza, produtora e tantas outras profissionais que, de alguma maneira, fizeram parte daquele enorme evento.
Eu parei pra prestar atenção em todos espaços do evento e fotografar estas mulheres que estavam ali, trabalhando …com roupas confortáveis.
Então; as fotos desta matéria foram feitas durante o Suhai Festival Interlagos, um dos maiores eventos do mundo dedicado ao universo das motos e das experiências sobre duas rodas. Eu estava ali como uma das criadoras de conteúdo oficiais do festival e também como embaixadora da Suhai Seguradora.
Mas este texto não é sobre mim…é sobre as mulheres que estavam trabalhando.
E sobre uma coisa que tenho observado há algum tempo nos eventos de motos: a maneira como as mulheres estão ocupando esses espaços está mudando.
Não é sobre deixar de ser bonita
Quem acompanha eventos de motos há bastante tempo provavelmente conhece aquela velha fórmula: uma motocicleta em destaque, um estande, música, luzes e uma mulher ao lado da moto, muitas vezes usando um figurino escolhido muito mais para chamar atenção do que para facilitar o trabalho.
Isso fez parte do mercado durante muitos anos.
E ainda existe.
Mas também existe outra realidade.
Hoje encontramos mulheres que estão ali pelo que sabem fazer. Algumas entendem de moto, outras de marketing, vendas, comunicação, produção, atendimento, pilotagem. Muitas são motociclistas e consumidoras daquele mesmo produto que estão apresentando.
E eu gosto de perceber essa mudança.
Não acho que uma mulher precise deixar de ser bonita, ou feminina para ser respeitada.
E também não acho que uma determinada roupa faça alguém ser menos profissional.
A questão, para mim, é outra: quem escolheu aquela roupa e para quê?
Porque existe uma diferença enorme entre uma mulher escolher como quer se vestir e uma profissional precisar trabalhar usando um uniforme que a deixa desconfortável porque alguém decidiu que aquilo vai chamar mais atenção.
E isso não é uma situação imaginária.
Eu sei porque já estive do outro lado.
Antes de ser jornalista e trabalhar há tantos anos no setor de motos, também fui promotora em diversos eventos. Já usei uniformes que me deixavam desconfortável, já passei por poucas e boas e sei exatamente como é estar ali trabalhando e, ao mesmo tempo, ter que lidar com situações que não deveriam fazer parte do trabalho.
Talvez por isso eu tenha olhado para essas mulheres de uma maneira diferente durante o festival. Não estava apenas fotografando quem estava nos estandes. Eu estava reconhecendo nelas um pouco daquilo que eu mesma já vivi.
Uma das profissionais que conversou conosco contou:
“Já aconteceu de eu passar mais tempo preocupada com a roupa do que com o trabalho. Ficava o tempo todo tentando me cobrir ou ajeitar o figurino.”
É difícil desempenhar bem uma função quando você está o tempo inteiro pensando na roupa que está usando.
Outra profissional falou sobre um problema ainda mais delicado:
“Tem gente que acha que, porque você está trabalhando com uma roupa mais chamativa, pode fazer qualquer comentário. Mas eu estou trabalhando. Isso não significa que estou disponível para qualquer abordagem.”
Precisa dizer mais alguma coisa?
A mulher que está ao lado da moto também pode entender de moto
Talvez essa seja uma das mudanças que mais gosto de ver.
A mulher que está em um evento de motos não está necessariamente ali para compor o cenário.
Ela pode ser a profissional responsável pelo estande.
Pode ser a engenheira.
A piloto.
A jornalista.
A mecânica
A gerente.
A diretora de marketing.
A fotógrafa.
A influenciadora.
A vendedora.
A executiva.
Ou simplesmente uma mulher que gosta de motos.
E, sim, também pode ser uma modelo ou promotora. Não há problema nenhum nisso.
O problema é quando a mulher deixa de ser vista como profissional e passa a ser tratada apenas como parte da decoração.
O público também mudou
Quem vai hoje a um grande evento de motos encontra uma diversidade que não existia da mesma maneira algumas décadas atrás.
Homens acompanhando suas esposas. Pessoas que estão começando a andar de moto.
Pessoas que já viajam milhares de quilômetros.
E muita gente interessada em tecnologia, segurança, equipamentos, acessórios e novas motocicletas.
Não dá mais para imaginar que o público está ali apenas para olhar uma moto e uma mulher ao lado dela.
Aliás, já vi homem ficar até sem graça quando uma promotora se aproxima usando um figurino extremamente chamativo, enquanto ele está acompanhado da esposa.
O mundo mudou, o consumidor mudou. E os eventos também estão mudando.
Foi isso que procuramos fotografar
Não quisemos fazer um ensaio sobre “as mulheres modelos do festival”.
Quisemos fotografar mulheres trabalhando.
Mulheres que estavam confortáveis.
Mulheres que conseguiam circular, atender, conversar, trabalhar e representar suas empresas sem precisar lidar o tempo todo com uma roupa que incomodava ou expunha mais do que gostariam.
E achei bonito perceber quantas possibilidades existem. Uniformes modernos.
Looks elegantes.
Roupas com personalidade.
Mulheres completamente diferentes umas das outras.
Nenhuma delas precisava estar excessivamente exposta para chamar atenção.
E isso não significa que a feminilidade desapareceu.
Muito pelo contrário.
Ela continua ali, mas não é a única coisa que está sendo apresentada.
Eu mesma acompanho o mercado há mais de duas décadas e vi muita coisa mudar.
E também não acho que precisamos transformar isso em uma guerra entre “roupa curta” e “roupa comportada”.
Cada mulher sabe o que gosta de vestir.
O que precisamos discutir é o direito de trabalhar sem constrangimento.
Se uma promotora quer usar uma roupa curta, tudo bem.
Se outra prefere uma calça e uma camisa, tudo bem também.
Se uma modelo se sente confortável com determinado figurino, ótimo.
Mas se ela está desconfortável, não deveria precisar aceitar aquilo simplesmente porque “é assim que funciona”.
É aí que está a diferença.
Elas já são protagonistas
Talvez a maior mudança seja perceber que as mulheres não estão mais apenas ocupando o espaço ao redor das motocicletas.
Elas estão dentro da indústria.
Elas compram, pilotam, vendem, testam, escrevem.
Elas produzem, comandam equipes…criam conteúdo.
E foi a minha ideia de registrar no Suhai Festival Interlagos.
Não apenas mulheres modelos em um evento de motos.
Mas mulheres que estavam fazendo aquele evento acontecer.
A mulher que está ali trabalhando não precisa ser um acessório.