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Viagem de moto para Patagônia, inspira-se com essa aventura

O motociclista Ed Beltrão nos conta aqui no site acelerada como foi a aventura de viajar de moto e conhecer Patagônia, um sonho que foi realizado. Ir à Patagônia de motocicleta era um desejo antigo. Amantes desta modalidade sabem que motocicletas são veículos perfeitos, que nos proporcionam a sensação de estarmos engajados com tudo que nos cerca…

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O motociclista Ed Beltrão nos conta aqui no site acelerada como foi a aventura de viajar de moto e conhecer Patagônia, um sonho  realizado.

VIAGEM DE MOTO PARA PATAGÔNIA, UM SONHO REALIZADO

 Ir à Patagônia de motocicleta era um desejo antigo.  Amantes desta modalidade sabem que motocicletas são veículos perfeitos, que nos proporcionam a sensação de estarmos engajados com tudo que nos cerca. Me faz lembrar de alguns famosos do passado que concordariam com esta visão; Steve McQueen, George Bernard Shaw, Charles Lindbergh, Roy Rogers, Elvis Presley, Brigitte Bardot, Marlon Brando entre muitos outros afortunados homens e mulheres.

Como era minha viagem épica, optei por faze-la com guias locais. Assim, conheceria localidades, as quais sozinho dificilmente teria acesso. Comprei um tour. As vantagens desse procedimento são que gasolina, defeitos mecânicos, documentação de fronteira estão fora de nossa responsabilidade. Nosso guia era um experiente senhor chileno de origem alemã, Roberto Baum. As motos eram todas BMW, sempre preferidas por serem robustas e resistentes. Nossa bagagem (mínima) foi em malas de borracha impermeáveis, numa pick-up que nos seguia a distância.

A PREPARAÇÃO FÍSICA PARA ESSA VIAGEM

Meu preparo físico para a aventura teve início no Clube Paulistano, três meses antes sob a tutela da Personal Trainer, Canducha. Foi na medida para aguentar os rigores da rota, do tempo e dos tiros diários de 400-500kms nos dia de rípio (mistura de cascalho e terra).

-50   A temida Ruta 40.

Eram vários os desejos e desafios. Ir ao “fim do mundo” e carimbar meu passaporte lá, andar no rípio, visitar uma pinguinera, molhar a cabeça nas aguas antárticas, apreciar as cores contrastantes da região e  mais importante, citando o alpinista inglês, George Mallory, “because it’s there”.

Cheguei: depois de 15 anos pensando nessa viagem, ela virou realidade e a prova está no carimbo do passaporte da última agência de Correio do mundo (abaixo).

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Os magníficos “Cornos del Paine.

-61 Pôr do sol na Estância La Angustura.

 

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Puerto Guarany a derradeira agência de Correios do mundo; Nuvens do “fim do mundo” – sai pra lá!

O TRAJETO

Ao todo a rota incluiu 6.000kms, sendo 50% de rípio e 50% asfalto. Saímos de Punta Arenas e seguimos para Cerro Sombrero, Rio Grande, Ushuaia, Puerto Natales, Cerro Castillo, Esperanza, El Chaltén, Torres del Paine, El Calafate, Lago Viedma, Coyhaique, Puyuhuapi, Esquel, El Bolsón, San Carlos de Bariloche e Osorno. Ao todo cruzamos entre Chile e Argentina sete vezes.

HUMOR COMO TUTOR

Informei a todos os participantes, inclusive ao nosso guia-líder, Roberto, da minha inexperiência em rodar no rípio. O grupo era composto por seis alemães e quatro americanos. Os alemães, bastante confiantes em suas habilidades, tendo feito os cursos off road da BMW por duas vezes, todos passando com diploma e louvor. Muito bem, chegando na Terra do Fogo, paramos a um metro do início da estrada de rípio. Nosso intrépido guia-líder, me chamou e disse: “para pilotar no rípio, desengaje o freio ABS, fique de pé nas pedaleiras e vroom” e foi embora com a tropa atrás dele. Fiquei olhando enquanto desapareciam na poeira distante. Permaneci estático, incrédulo e com o orgulho ferido mas, tendo na bagagem 43 anos de motociclismo, participações na pista de Interlagos, cruzado os Andes e feito um “rally-experience” em Lençóis Maranhenses, subi na moto e fui confiante ao encalço do grupo. Depois de um dia de muito pavor, muitos sustos, sambando feito crioulo doido sobre pedrinhas, areia fina e terra mole, sobrevivi e peguei o jeitão da coisa. Na manhã seguinte já estava andando encostado no guia-líder. Posteriormente, agradeci ao nosso guia-líder por ter utilizado o humor como tutor nessa experiência. Rimos juntos. No final da história, todos os alemães caíram – sem se machucar muito. Nenhum dos nós americanos sofreu nenhuma queda.  Nossa gozação particular em cima dos teutos foi com forte virtuosismo e razoável discrição.

RODAR NA PATAGÔNIA

As estradas pavimentadas Chilenas e Argentinas são excelentes e sem buracos. De cara, achei que meu maior inimigo era o vento sempre soprando veloz – a cerca de 40-50kph (os locais chamam isso de “brisa”). As vezes em rajadas mais fortes. O efeito disso na moto é rodar a uma velocidade entre 80-120kph no rípio, mas com a moto inclinada entre 15-20 graus – o dia inteiro. Cansa muito o corpo todo. O vento, pó e frio entram por todas as frestas. Certos dias fazia 5 graus na saída da manhã. Brrrrr. Aí você pensa ” poxa, bem que esse vento poderia dar uma trégua”. Acontece, mas aí vem a chuva, difícil saber qual inimigo escolher.

-59   Serra perfeita – para motociclistas – em Coyhaique. 

EM HARBERTON

Pegamos um flyboat e navegamos pelo Canal de Beagle até a Ilha Gable. É uma estância ecológica, cuja gestão é da bióloga Americana Rae Natalie Prosser. Na ilha, temos que falar baixo para não incomodar seus habitantes, os pinguins magallánicos. Conhecemos também seus maiores predadores – as Skua, espécie de gaivota rapineira que tem atração especial por ovos e pequenos filhotes de pinguins. O vento úmido e a aguas gelada da região fazem do refúgio um local ideal para seus habitantes antárticos. Deitei para fazer uma foto perto dos animaizinhos e sai corrido pelos mesmos.

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Deitado com os pinguins; estrada do parque até Harberton e o passaro, o habitante local, um Skua.

PUERTO PUYUHUAPI

Reza a lenda que engenheiros de Hitler fundaram o vilarejo com duplo propósito; um de abrir uma fábrica de tapetes coloridos tecidos em enormes teares que encobriria o real propósito que era abastecer os navios e submarinos alemães durante a Segunda Grande Guerra. Hoje o vilarejo tem 500 habitantes. Os nomes das ruas são curiosos. Uma esquina é: Otto Uebel x Rua Hamburgo. A ponte sobre o Rio Pascua, leva o nome de Walther Hopperdietzel. Ficamos na Hosteria Alemana e nossa anfitriã, uma robusta representante germânica, vendo nosso estado empoeirado depois de rodarmos 350kms no rípio da Carretera Austral, mandou que enfileirássemos e nos esguichou de cima a baixo ali mesmo, para que entrássemos limpos em sua pousada. Os alemães bateram continência e eu dei risada da birutice.

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Cenas de Puyuhuapi; Vale reparar na sujeira da roupa depois de rodar na Carretera Austral.

PRAGA DE BAIXINHO

 

Durante o trecho mais árduo na Ruta 40, conhecida por fazer parte do Rally Dakar e, de seu piso composto por areia fina e cascalho bem solto, o grupo deparou-se com um furgão branco levando uma família. Ao tentarmos ultrapassa-lo a cerca de 100kms/h nas condições descritas, ele acelerou e ficou a nossa frente. Mal conseguíamos enxergar com tanta poeira. Mal conseguíamos ficar em cima das motos que sambavam naquele piso. Não era possível ir mais devagar ou parar porque a Ruta 40 é rota de grandes caminhões sem respeito algum por veículos menores. Passados uma hora, nos deparamos com os passageiros do furgão em um mirante. Eu, claro, o baixinho irado, invocado e inconformado, fui tirar satisfações e acabei dizendo desaforos e desejando-lhes que seu veículo explodisse em chamas.  E, não é que aconteceu tempos depois em uma estrada montanhosa e remota beirando o Rio Frio. Vimos fogo vindo do furgão. Paramos e ajudamos a tirar tudo e todos de dentro. O furgão acabou explodindo mesmo. Os alemães passaram a prestar muita atenção em tudo o que eu dizia após esse incidente.

-68 Furgão em chamas

-34  Ruta 40

AS MOTOS

As vibrações, sacolejos e trepidações as quais as motos são submetidas são ultrajantes. Minha moto perdeu todo o óleo dos garfos dianteiros antes de chegarmos ao Ushuaia. Traduzindo, é como andar num carro sem amortecedor numa estrada de terra. Outra moto quebrou a mola da suspensão traseira. Uma quebrou o chassis e teve que ser enviada de volta à Alemanha. Duas furaram os pneus. Durante os tombos dos alemães, outras peças foram danificadas. Enfim, sem um mecânico experiente e um carro-apoio teria sido impossível terminar o trajeto. Cruzamos com um motociclista solitário a espera de alguém que pudesse socorre-lo em um local tão ermo que dias poderiam passar antes de uma alma viva surgir. Este, um inglês, em uma moto KTM ficou tão agradecido com a ajuda, que chorou e beijou todos nós.

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BMW GS 800 com chassis quebrado e últimos preparativos antes de partirmos de Punta Arenas, Chile. Nossa bagagem ia nas malas atrás da pick-up.

 

LA LEONA

Às margens do Lago Viedma, há uma pequena estalagem onde o vento bate constante e forte. Leva o nome de La Leona, homônimo da região e, tem refeições quentes e gostosas. Naquele local, há muitos anos atrás, moraram os renomados bandidos Butch Cassidy, Sundance Kid e Ethel Place. Foram fazendeiros por um bom tempo na Patagônia, depois de terem ficado ricos pilhando bancos nos EUA, Chile e Argentina. Ethel voltou aos EUA, grávida de Butch. Ela recusou-se a participar do “último” assalto aos cofres da Aramayo Franke Silver Mine. Detalhe relevante; nunca acharam seus corpos para provar que eles morreram mesmo.

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Eu, em frente a estalagem em La Leona e as distâncias que estávamos de outros destinos.

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Butch em pôster; a quadrilha.

PERITO MORENO

 

O belíssimo paredão glaciar de Perito Moreno chega a 60 metros de altura. Tanto de barco quanto dos pontos de observação, percebemos  que o paredão é azul. Queria muito fotografar uma das placas de gelo despencando no lago. Como era um “day off”, esperei três horas mirando um mesmo ponto e consegui uma sequência especial.

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Nas imagens: Perito Moreno da estrada , cada corte na rocha significa alguns milhões de anos.

-40 Surpresa: o gelo é azul! Um pequeno deslizamento. Bom comparar as pedras de gelo com o tamanho das pessoas no plano esquerdo inferior.

MAIS DO QUE DOIDOS

 

Cruzamos com muitos ciclistas indo em direção ao Ushuaia. Um casal de Irlandeses estava descendo desde Lima, Perú. Apesar do vento frio, rípio e das distâncias entre pontos de parada para comer, seguiam serenos em seus objetivos. Outra vez, em um dos cruzamentos de fronteiras, conhecemos um italiano, convicto que a Vespa 1970 dele era o melhor veículo para o rípio, para tudo. Pode? Voou a Vespa da Itália para o Alaska, veio descendo, depois subiria e  terminaria em Cuba. Será? Apesar dos sobressaltos mecânicos e da burocracia das aduanas, seguia só e sossegado.

-41 -56  Os Irlandeses que desciam de “magrela” de Lima, Perú. A Vespa do Italiano que veio desde o Alaska com poucos danos à  “motinha” – repare no para-brisa pela metade.

EL BOLSÓN

 

Os militares Argentinos dos anos 70, tomaram uma decisão curiosa. Com a advento da geração hippie e para evitar conviver com aqueles “esquisitos” nos grandes centros como Buenos Aires, doaram um território para que fossem se estabelecer lá e fazerem suas comunidades longe dos grandes centros urbanos. Hoje, passados 40 e poucos anos, é uma área próspera em trekking, canoagem e artesanato atraindo milhares de turistas o ano todo. De repente, o Brasil poderia fazer o mesmo com seus políticos. Poderia ser a Ilha das Cobras, não?

ESTANCIA SAN GREGORIO E ESTREITO DE MAGALHÃES

 

Antes de chegarmos ao Estreito, passamos pela Estancia San Gregorio, uma das maiores produtoras de lã no início do século 20. As ovelhas foram trazidas das Falklands e aclimatadas em Punta Arenas, Chile. Tristemente, jaz a carcaça do rebocador da Estancia, Amadeo, o primeiro da região. Outro esqueleto é o do Clipper Ship Ambassador. Os Clipper Ships eram navios velocíssimos para à época. O Ambassador tinha design e construção idêntica ao Cutty Sark, atualmente em museu em Londres. Three cheers to the Ambassador.

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Esqueleto do Ambassador e a Estancia San Gregorio de frente para o Estreito de Magalhães em Punta Arenas.

O Estreito de Magalhães é um das vias marítimas mais traiçoeiras. Em sua parte mais estreita, tem cerca de 2kms de largura. Foi onde cruzamos para a Patagônia Argentina. Nossa balsa/navio tinha paredes laterais e frontais bem altas e estava, cheio de carros, caminhões e motos. Entendi o porque das paredes altas rapidamente. Tivemos que parar duas vezes devido a virada de tempo, encarneirando o mar e lavando o interior da embarcação. Diz-se que lá, como em São Paulo, faz quatro estações em um dia. Pinguins e baleias brincam e nadam em volta da embarcação o tempo todo.

-11 Eu, com a Terra do Fogo pela proa da balsa.

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Filhotes de baleias brincam no entorno da balsa.

CONCLUSÃO

As belezas naturais dos Cornos del Paine, do Monte Fitz Roy e das Estâncias são ímpar. Praticamente todas as pessoas dão boas-vindas aos viajantes motociclistas, tornando o convívio, bem como as estadas nessas ocasiões, ricas em experiências pessoais. Todos sabemos o quanto ficamos mais vivos ao viajarmos. De minha parte, estou me dedicando a planejar às próximas aventuras. Desejo o mesmo para vocês, leitores do site acelerada ” Bon Voyage”.

Texto e Fotos: Ed Beltrão

 Vejam mais fotos;

 

 

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