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Viagens

Cinco países, 11.000 km e uma história entre pai e filha!

Publicado

em

Por Ruy Barbosa – pai da Acelerada Renata Lentini

  • Viajantes: Ruy (pai) e Renata (filha)
  • Motos: Honda Gold Wing e BMW R1200GS Adventure
  • Período: 17/01/2026 a 13/02/2026
  • Duração: 28 dias
  • Distância percorrida: aproximadamente 11.000 km
  • Países visitados: Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai

 

Pai e “Philha” On the Road 2026

 

Algumas viagens são planejadas com mapas, planilhas e roteiros. Outras começam muito antes da partida. Começam com um sonho.

Para nós, esse sonho tinha a forma de duas motocicletas, uma estrada sem fim e um destino que parecia distante demais para ser apenas uma foto na internet: a Mão do Deserto, no norte do Chile.

Ao longo da minha vida sobre duas rodas, tive a oportunidade de realizar viagens que pareciam impossíveis quando comecei a pilotar. Já fui ao Alasca, cheguei ao Ushuaia e vivi aventuras que me ensinaram muito sobre a estrada.

Mas essa viagem tinha algo diferente.

Pela primeira vez, eu estava embarcando em uma grande expedição internacional ao lado da minha filha Renata.

No dia 17 de janeiro de 2026, eu e minha filha deixamos Belo Horizonte para viver uma aventura que ocuparia um lugar muito especial na nossa história sobre duas rodas. Pela frente, 28 dias de viagem, cerca de 11.000 quilômetros e quatro países além do Brasil: Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai.

Mas, como toda grande viagem, o que encontramos pelo caminho foi muito maior do que os lugares que pretendíamos visitar.

 

O primeiro carimbo, a primeira emoção

 

A travessia da fronteira entre Guaíra e Salto del Guairá foi um momento simples para quem vê de fora.

Mas para nós significava muito.

Era nossa primeira fronteira internacional de moto.

Ao cruzar aquela ponte, tivemos a sensação de que a aventura realmente havia começado. O idioma mudou, as placas mudaram, a moeda mudou. E, de repente, estávamos muito longe da nossa zona de conforto.

Era exatamente isso que procurávamos.

O norte argentino e as paisagens que parecem de outro planeta.

Conforme avançávamos pela Argentina, as paisagens se transformavam.

Tilcara e Purmamarca surgiram diante de nós como cenários pintados à mão. Montanhas coloridas, estradas sinuosas e uma imensidão difícil de descrever.

Em alguns momentos, parávamos apenas para observar.

Ficávamos em silêncio e simplesmente vivíamos aquilo.

Algumas paisagens são tão bonitas que o silêncio parece a única reação possível.

 

O dia em que a estrada nos testou

 

Toda viagem tem um capítulo que nunca será esquecido.

O nosso foi o Paso de Jama.

A travessia entre Argentina e Chile nos recebeu com frio intenso, altitude elevada, vento absurdo e chuva.

O vento era tão forte que, em determinados trechos, precisávamos pilotar inclinados para continuar seguindo em linha reta.

O frio atravessava as roupas.

As mãos doíam.

O corpo inteiro reclamava.

Mas não havia alternativa além de seguir em frente.

Hoje, olhando as fotos, parece incrível.

Naquele dia, parecia impossível.

Mesmo depois de tantos quilômetros rodados ao longo da vida, aquele foi um dos dias mais desafiadores que já enfrentei em uma motocicleta.

E talvez seja exatamente por isso que a lembrança tenha se tornado tão especial.

 

O lugar que motivou toda a viagem

 

Existem destinos bonitos.

E existem aqueles lugares que mexem com você sem explicação.

A Mão do Deserto era esse lugar.

Durante meses ela esteve presente no planejamento, nas conversas e nos sonhos, especialmente os da Renata.

Quando finalmente apareceu no horizonte, isolada no meio daquela imensidão de areia, tivemos a sensação de que havíamos chegado muito mais longe do que a distância mostrava no GPS.

Ali estava o destino que inspirou toda aquela jornada.

Ou pelo menos pensávamos que estava.

Porque o deserto ainda tinha uma última brincadeira preparada.

Uma rajada de vento levou embora uma lente de contato da Rê e encheu os olhos dela de areia.

Uma lembrança típica do Atacama: inesquecível e desconfortável ao mesmo tempo.

 

O Pacífico à direita, os Andes à esquerda

 

Se alguém me perguntar qual foi o trecho mais bonito da viagem, provavelmente vou responder: a descida pela costa chilena.

Durante dias rodamos com o Oceano Pacífico de um lado e a Cordilheira dos Andes do outro.

Cada curva revelava uma nova paisagem.

Cada parada rendia uma foto.

E cada foto era incapaz de mostrar o que realmente estávamos vendo.

A grande realidade é que grandes experiências simplesmente não cabem numa câmera.

 

Quando tudo quase deu errado

 

Toda aventura tem seus sustos e faz parte das histórias para contar depois.

O maior deles aconteceu logo no início.

Perdemos a chave da Gold Wing na região da fronteira.

Por alguns momentos, a possibilidade de encerrar a viagem antes mesmo de ela começar pareceu real.

Vieram as buscas, a tensão, as hipóteses e aquela sensação de frio na barriga que todo viajante conhece.

Felizmente encontramos uma solução e seguimos viagem.

Mas ali aprendemos uma lição importante: grandes expedições não dependem apenas de planejamento.

Dependem também de capacidade de adaptação e de como encaramos as adversidades.

E de um pouco de sorte.

 

A arte de não saber onde dormir

 

Nunca fomos fãs de reservar hospedagem com muita antecedência.

Gostamos da liberdade que a estrada proporciona.

Mas essa filosofia foi colocada à prova quando chegamos a Viña del Mar às dez da noite.

Cansados.

Com fome.

Sem reserva.

E em uma das cidades mais caras da viagem.

Foram horas procurando um lugar que coubesse no orçamento.

Naquele momento, um quarto simples parecia um hotel cinco estrelas.

 

Os sonhos continuam até o último dia

 

Quando a viagem já se aproximava do fim, ainda havia um sonho antigo a realizar.

A Serra do Rio do Rastro.

Tentamos alcançá-la ao anoitecer, debaixo de chuva.

A prudência venceu a ansiedade.

Decidimos esperar.

Na manhã seguinte, a recompensa veio em forma de curvas perfeitas, montanhas cobertas por nuvens e uma das estradas mais espetaculares do Brasil.

Um sonho que mereceu ser vivido sem pressa.

 

O que realmente levamos para casa

 

Ao longo da viagem conhecemos lugares incríveis, enfrentamos desafios e acumulamos histórias para contar.

Mas, olhando para trás, percebo que o verdadeiro valor daquela jornada não estava em nenhum ponto do mapa.

Quando as pessoas perguntam sobre a viagem, normalmente querem saber dos quilômetros, dos países visitados ou das motos.

Mas a verdade é que nenhuma dessas coisas é o mais importante.

O que ficou foram os momentos compartilhados entre pai e filha, ou melhor, o Pai e a Philha  (veja nossa arte da nossa trip para entenderem rsrsrs) .

As conversas e brincadeiras pelos intercomunicadores.

As risadas nos postos de gasolina.

Os desafios enfrentados juntos.

As paisagens que nos deixaram sem palavras.

Ao longo da vida tive a felicidade de viver grandes aventuras sobre duas rodas, algumas delas em lugares que jamais imaginei conhecer.

Mas essa viagem ocupou um espaço especial na minha memória.

Porque os destinos são importantes, mas as pessoas com quem compartilhamos a estrada são ainda mais.

Ao final de 11.000 quilômetros, voltamos para casa com as mesmas motos.

Mas não éramos as mesmas pessoas que haviam partido.

Porque viajar transforma.

E viver uma aventura dessas ao lado de uma filha transforma ainda mais.

Algumas lembranças ficam registradas em fotografias.

Outras ficam gravadas para sempre no coração.

E essa nossa viagem nos deixou as duas coisas.

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