Há mais de duas décadas convivendo com mulheres no motociclismo, aprendi uma coisa: quase toda mulher carrega uma história que ninguém imagina.
Algumas são de conquistas incríveis. Outras, de muita dor.
Infelizmente, ao longo desses anos, ouvi relatos de mulheres que sofreram violência dentro de casa, em relacionamentos, no trabalho e até praticada por outras mulheres. Histórias que muitas vezes nunca foram contadas em voz alta. Histórias guardadas por medo, vergonha ou simplesmente porque ninguém perguntou.
Foi pensando nelas que nasceu a campanha deste Agosto Lilás.
O Movimento Aceleradas apresenta “Aceleradas, Daqui Pra Frente”, uma corrente de acolhimento para mostrar que sempre existe um caminho para recomeçar.
Durante todo o mês de agosto vamos publicar, de forma totalmente anônima, relatos de mulheres do movimento aceleradas, que conseguiram romper um ciclo de violência e reconstruíram suas vidas.
Não importa se foi violência física, psicológica, moral, patrimonial, sexual ou qualquer outra situação que roubou sua paz e sua liberdade. Também não importa há quanto tempo isso aconteceu. O que importa é que a sua história pode dar força para outra mulher que, talvez hoje, esteja vivendo exatamente o que um dia você viveu.
Sempre digo que a motocicleta mudou a minha vida. Não apenas pelas viagens ou pelas aventuras, mas principalmente pelas pessoas que ela colocou no meu caminho.
O Aceleradastambém transformou a minha vida.
Conheci milhares de mulheres. Fiz amigas para a vida inteira. E, junto com elas, descobri que muitas batalhas acontecem longe dos nossos olhos.
Às vezes, a violência não deixa um hematoma.
Ela aparece no controle excessivo, no ciúme disfarçado de cuidado, na humilhação constante, nas ameaças, na manipulação, na dependência financeira, no isolamento da família e dos amigos.
Quando a mulher percebe, já não se reconhece mais.
E é exatamente por isso que falar sobre esse assunto é tão importante.
No motociclismo costumamos dizer que pilotar é assumir o controle da própria moto.
Na vida, também chega um momento em que precisamos assumir o controle da nossa própria história.
Tenho visto isso acontecer muitas vezes dentro do Aceleradas.
Mulheres que chegaram tímidas, inseguras, com medo de tudo. Algumas nem acreditavam que seriam capazes de pilotar uma motocicleta.
Hoje viajam sozinhas, fazem novas amizades, descobriram uma profissão, recuperaram a autoestima e, principalmente, voltaram a acreditar nelas mesmas.
A liberdade começa muito antes de ligar uma motocicleta.
Ela começa quando uma mulher entende que merece viver sem medo.
Histórias que podem salvar outras histórias
Enquanto preparávamos esta campanha, algumas mulheres já começaram a nos enviar seus relatos. Todas pediram anonimato. Mas também disseram que, pela primeira vez, sentiam que suas histórias poderiam servir para algo maior.
Uma delas escreveu:
“Demorei anos para entender que aquilo que eu vivia era violência. Hoje percebo que contar a minha história pode fazer outra mulher enxergar isso mais cedo. Se eu puder evitar que alguém passe pelo que passei, já valeu a pena.”
Outra nos emocionou ao dizer:
“Por muito tempo senti vergonha do meu passado. Hoje entendo que sobreviver nunca foi motivo de vergonha. Compartilhar minha história é uma forma de dizer para outras mulheres que elas não estão sozinhas.”
Uma terceira participante resumiu o motivo de aceitar fazer parte da campanha:
“Quando consegui sair daquela situação, prometi para mim mesma que um dia ajudaria outras mulheres. Talvez ninguém saiba quem eu sou, mas saber que meu relato pode dar coragem para outra mulher já faz tudo valer a pena.”
Também recebemos uma mensagem que nos fez refletir sobre como a violência pode ser silenciosa:
“As pessoas olhavam para mim e achavam que estava tudo bem. Mas eu vivia com medo, controlada e sem acreditar em mim. Hoje sou livre. Se uma única mulher criar coragem depois de ler meu relato, já terei feito a diferença.”
E um dos depoimentos que mais tocou nossa equipe dizia:
“Alguém estendeu a mão para mim quando eu mais precisei. Hoje quero fazer o mesmo por outra mulher.”
É exatamente essa corrente que queremos construir.
Mulheres ajudando mulheres.
Sem julgamentos.
Sem exposição.
Com acolhimento, respeito e esperança.
Porque, às vezes, basta uma história para mudar outra história.
Talvez exista uma mulher lendo este texto agora, sem saber o que fazer da própria vida. E talvez seja justamente um desses relatos que faça ela entender que pedir ajuda não é fraqueza.
É o primeiro passo para voltar a viver.
“Daqui Pra Frente” representa exatamente isso.
Não é esquecer o passado.
É decidir que ele não vai mais definir o futuro.
No Aceleradas acreditamos que acelerar também é seguir em frente.
É recuperar a voz.
É reencontrar a coragem.
É voltar a sonhar
Neste Agosto Lilás, queremos que cada relato seja uma mão estendida para outra mulher.
Porque liberdade combina com estrada.
Mas, acima de tudo, combina com respeito, dignidade, autonomia e uma vida livre de qualquer forma de violência.
Se você viveu essa realidade e conseguiu recomeçar, envie seu relato por mensagem privada para o Instagram do Movimento Aceleradas.
Seu depoimento será publicado de forma totalmente anônima. Nenhum nome, fotografia ou qualquer informação que permita sua identificação será divulgada.
Quem sabe a sua história seja exatamente a coragem que outra mulher precisa para encontrar forças e escrever um novo capítulo da própria vida.