É comum ouvir motociclistas dizendo que “dor faz parte da pilotagem”. Dor nas costas, nos punhos, no pescoço ou nos joelhos acaba sendo tratada como algo normal, principalmente em viagens longas.
Mas a verdade é outra.
Embora pilotar uma motocicleta exija esforço físico, dores frequentes não devem ser encaradas como consequência inevitável. Na maioria dos casos, elas são um sinal de que existe algum desequilíbrio entre o piloto, a moto e a forma como ambos interagem.
Dor na cervical: a mais frequente
A coluna cervical sustenta um capacete que pode pesar entre 1,3 e 1,8 kg. Em movimento, principalmente em velocidades elevadas, a resistência do vento aumenta significativamente essa carga.
Se a postura estiver incorreta ou o motociclista permanecer muito tempo com a cabeça projetada para frente, os músculos entram em fadiga, provocando dor, rigidez e até dores de cabeça.
A altura do para-brisa, a aerodinâmica da moto e um capacete inadequado também podem contribuir.
Dor lombar: nem sempre o problema está nas costas
A lombalgia é uma das maiores queixas entre motociclistas.
Ela pode estar relacionada à postura, à falta de fortalecimento da musculatura do tronco, à suspensão mal regulada ou até à posição das pedaleiras e do guidão.
Cada impacto causado por buracos ou irregularidades do asfalto percorre toda a coluna. Quando esse esforço se repete por horas, a musculatura entra em sobrecarga.
Em muitos casos, pequenos ajustes ergonômicos resolvem dores que persistem há anos.
Ombros tensos e braços doloridos
Outro erro muito comum é pilotar “brigando” com a moto.
Quando o motociclista segura o guidão com força excessiva, ele transfere toda a tensão para ombros, trapézio e braços.
O resultado costuma aparecer em forma de dores musculares, sensação de peso nos ombros e até formigamentos.
Pilotar exige firmeza, mas também relaxamento.
Quanto mais rígido o corpo, pior ele absorve as irregularidades da pista.
Punhos e mãos
Dormência nas mãos, perda de força e formigamentos podem indicar compressão de nervos, inflamações por esforço repetitivo ou até síndrome do túnel do carpo.
Punhos excessivamente dobrados, manetes mal regulados e guidões inadequados aumentam significativamente esse risco.
Muitas vezes, um simples ajuste ergonômico já reduz a sobrecarga.
Joelhos e quadris
Nas motos esportivas ou em alguns modelos de baixa cilindrada, a flexão acentuada dos joelhos pode provocar desconforto, principalmente em pilotos altos.
Já nas big trails, custom e touring, outros fatores entram em cena, como a distância das pedaleiras e a abertura do quadril.
Após muitas horas de viagem, é comum ocorrer rigidez articular.
Por isso, fazer pequenas pausas para caminhar e alongar o corpo melhora a circulação e reduz o risco de dores.
Vibração também provoca lesões
Pouca gente associa vibração à dor.
No entanto, motocicletas com elevado nível de vibração podem provocar fadiga muscular, desconforto nas mãos e até alterações de sensibilidade quando a exposição é prolongada.
Por isso, manutenção adequada, pneus balanceados e componentes em boas condições também fazem parte da prevenção.
A importância da ergonomia
Não existe uma motocicleta perfeita para todo mundo.
Existe a motocicleta mais adequada para cada biotipo.
Altura do banco, posição do guidão, distância das pedaleiras, regulagem das manetes, suspensão e até o tipo de banco influenciam diretamente na saúde musculoesquelética.
Às vezes, poucos centímetros fazem uma enorme diferença depois de centenas de quilômetros.
Seu corpo dá sinais
A dor não deve ser ignorada.
Quando ela aparece apenas durante a pilotagem ou se torna frequente após cada passeio, vale investigar a causa antes que pequenas sobrecargas evoluam para lesões mais sérias.
Pilotar deve trazer liberdade, não sofrimento.
Cuidar da ergonomia, fortalecer a musculatura, manter uma boa postura e fazer ajustes na motocicleta não aumentam apenas o conforto. Também melhoram o controle da moto, reduzem a fadiga e contribuem para uma pilotagem mais segura.
Porque quem cuida do próprio corpo também pilota.
Logo mais teremos uma colunista – médica especialista em dor e tratamentos. Divulgaremos em breve.