Um dos temas que sempre faço questão de abordar nos treinamentos do PPM – Pilotagem Para Mulheres, o Aceleradas Training, é algo que considero fundamental para qualquer pessoa… principalmente quando está pilotando uma motocicleta: evitar discussões e confrontos no trânsito. A moto é um Veiculo menor e um carro pode ser uma arma contra o motociclista.
Eu me considero uma pessoa de nível hard quando o assunto é paciência e calma no trânsito. Já fui xingada, provocada, fechada e já vivi situações extremamente perigosas. Em pelo menos três ocasiões, tive experiências muito claras de motoristas que, de propósito, tentaram me derrubar com seus veículos. E, se eu considerar todas as situações indiretas de risco e agressividade que já vivi ao longo de tantos anos sobre duas rodas, sinceramente, perdi a conta.
Mesmo assim, uma coisa eu aprendi: não existe discussão no trânsito que valha o risco de não voltar para casa.
Uma fechada pode virar uma tragédia
O trânsito brasileiro já é naturalmente complexo. Temos congestionamentos, pressa, imprudência, distração, motocicletas circulando entre veículos e pessoas que muitas vezes já entram no carro ou sobem na moto carregando o estresse de um dia inteiro.
Quando acrescentamos a isso a agressividade, uma situação aparentemente banal pode ganhar proporções muito maiores.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Real Time Big Data em 2024 mostrou que 53% dos entrevistados admitiram já ter discutido no trânsito e 82% disseram já ter xingado outro condutor. Quase 40% afirmaram ter sido ameaçados enquanto dirigiam e 12% disseram já ter se envolvido em brigas físicas.
São números que assustam, mas que também ajudam a explicar algo que nós, motociclistas, percebemos diariamente nas ruas: a intolerância está muito presente no trânsito.
E o problema é que, quando estamos sobre uma motocicleta, somos ainda mais vulneráveis.
Um carro pode ser uma barreira. Na moto, nosso corpo está exposto. Uma simples fechada pode nos levar ao chão. Uma perseguição pode terminar em acidente. Uma discussão que começa com um gesto ou uma buzina pode transformar completamente o rumo daquele dia — ou de uma vida.
Eu prefiro perder a razão do que perder a vida
Essa é uma frase que repito muito nos nossos treinamentos.
Se alguém me fecha, eu posso até ficar indignada. Posso pensar — e muitas vezes pensar alto dentro do capacete — “que absurdo!”. Mas sigo.
Se alguém me xinga, sigo.
Se alguém faz um gesto ofensivo, sigo.
Se alguém tenta provocar, sigo.
Porque eu não sei quem está dentro daquele veículo.
Não sei se aquela pessoa está armada. Não sei se está sob efeito de álcool ou drogas. Não sei se está emocionalmente desequilibrada. Não sei se está passando por um problema pessoal. E, principalmente, não sei até onde ela está disposta a ir.
Por isso, não vou descobrir.
Não vou parar para discutir. Não vou tirar o capacete para bater boca. Não vou perseguir. Não vou tentar “dar uma lição”. Não vou transformar uma situação ruim em uma situação potencialmente fatal.
Eu simplesmente quero chegar em casa, inteira para minha família.
A provocação não precisa virar resposta
Uma das coisas que ensinamos no treinamento PPM é que pilotar bem não significa apenas saber acelerar, frear, fazer curvas ou controlar a motocicleta.
Pilotar também envolve controle emocional.
É entender que algumas situações precisam ser administradas e não enfrentadas.
Uma pesquisa anterior do Instituto Real Time Big Data mostrou que 80% dos entrevistados preferiam ignorar provocações no trânsito, justamente para evitar que o conflito evoluísse.
E, para mim, essa é uma das melhores estratégias de segurança que podemos adotar. Não responder não é ser covarde. Não revidar não significa aceitar uma agressão.
Às vezes, a atitude mais inteligente e corajosa é simplesmente ir embora.
Se houver uma situação realmente grave, o caminho é buscar um local seguro e acionar as autoridades, em vez de tentar resolver o problema diretamente com o outro condutor. Essa também é uma orientação reforçada por autoridades diante de episódios recentes de violência no trânsito.
O trânsito já mata demais
O Brasil convive há anos com números preocupantes de mortes no trânsito. O Atlas da Violência registra dezenas de milhares de mortes anuais em transportes terrestres — foram 37.345 mortes em 2023, segundo os dados apresentados pelo Ipea.
E não existe uma estatística nacional consolidada capaz de dizer exatamente quantas dessas mortes começaram com uma simples discussão, uma fechada ou uma provocação. Muitos desses episódios acabam registrados dentro de outras categorias de ocorrência.
Mas nós vemos as notícias.
Brigas que terminam em agressões. Motoristas perseguidos. Motociclistas atacados. Pessoas atropeladas propositalmente. Armas sacadas depois de uma discussão por uma vaga ou uma ultrapassagem.
E é justamente por isso que esse assunto faz parte do nosso treinamento.
Pilotagem segura também é saber quando não reagir
Depois de tantos anos pilotando, posso dizer que minha experiência me ensinou que não precisamos vencer todas as batalhas que aparecem no caminho.
No trânsito, algumas batalhas simplesmente não merecem ser travadas.
Você pode estar certa. Pode ter sido fechada. Pode ter razão. Pode ter sido injustiçada.
Mas se a outra pessoa quiser transformar aquilo em uma briga, deixe que ela fique com a razão e siga seu caminho.
Porque no final das contas, existe uma coisa muito mais importante do que provar quem estava certo: chegar viva em casa.
É isso que quero que nossas alunas entendam no PPM – Pilotagem Para Mulheres. Pilotar uma motocicleta é liberdade, autonomia e prazer, mas também é responsabilidade.
E parte dessa responsabilidade está em saber controlar não apenas a motocicleta, mas também as nossas próprias reações.
“No trânsito, minha maior vitória não é ganhar uma discussão. É continuar a minha rota”.